17 3 / 2011
você não importa mais
“dia de fúria”
o filme.
estão todos observando cada centímetro
mas não é você
é sua roupa
seu jeito
seu cabelo, sua barba, sua blusa sem ferro quente.
Eles estão todos te esperando, mas não enxergam pele.
Você não importa mais!
Caia no primeiro balde,
morra se puder.
Suspenda sua inutilidade junto ao seu corpo.
16 3 / 2011
mais um debulhar
direto
sincero
acrescido de acréscimo de dor entupida nos poros,
paro se preciso for, parar para congelar as veias.
Não. Sabia que começaria com não, como não?
Sabe, saber, saber é um saber estranho, como não soube saber?
E o sujeito…ah, o sujeito anda, vago, pela noite acesa e densa.
Gotas no vidro não sinalizam nada, talvez um ventre enxuto de bons
bebês morrendo de respirar: o choro, o riso, o escárnio do mundo.
Caminhou pela mesma rua, pensando nas mesmas horas e no que escreveria,
como se houvesse rédeas, regras, releria o pensamento?
Tantos dias foram, mas nenhum como este. Depois da quase morte, do sinal de sorte, do sangue jorrando na cara cansada.
Só uma fonte para escorrer a escassez do sentimento nadificante que não chove, não molha, não esfria, não aquece, esquenta, esquece, esquece! Esqueça, esqueça, esqueça: mantra do dia, mantra da noite, mantra dos malditos dias de sangue.
Já leu aquela dor?
Quer dinheiro, quem diria. Quer sossego, quem diria. Quer alívio, conforto e carinho, quem diria, quem diria que o alívio, que o carinho, que o conforto…não seria a mochila, o sorriso, o vento soltos? Juntos, bem agarrados ao seu corpo?
vai ser assim
não vou lembrar
não vai poder olhar
só nuvem
estrada
barro
haverá luz e solidão
velas pelo chão queimando com a cêra do ouvido, limpando o chão árido do asfalto molhado.
não haverá nada
só o pensamento
só a busca pela felicidade
ela existe
deuses dizem
humanos dizem
ela existe
a felicidade, deus, ela existe, deus, deus?
acreditar, quero tanto acreditar
ela quer também, a alma, sabe, deus?
aquele filme vende, mas não é por ele…deus, estás aí?
não quero de barbas, nem branco, quero as partículas da tua lágrima, do teu sangue também…do teu suor deslizando lentamente sobre a barriga roendo de fome, deus! Olha aqui!
Olha só, como te olham, como te buscam, como te chamam de felicidade!
Eu acredito em ti deusa, felicidade…eu quero acreditar.
onde estás, onde busco?
em que vôo que me jogo?
por que não agora?
por que?
covardia da alma e do corpo
será tarde diz a voz
será tarde quando teus pulmões não mais desejarem o ar
as vísceras estarão expostas
foi quase um acidente
foi quase, quase…poderia e nada teria restado.
Talvez um fio de cabelo e um corpo estraçalhado pela rua da cidade pacata de desejo.
um corpo jovem que um dia amou demais a vida, amou demais a deus, amou demais cada cor dos olhos e não amou a si, o seu corpo e a sua alma, nem acreditou nela, na deusa felicidade, nem acreditou na capacidade, oh! palavra infeliz, a produção capital te aguarda!
será que compreenderão as palavras?
10 2 / 2011
o ar está gelado
barulho de cor cobre
eles falam de tudo, da mudança
eu não sei de nada daqui
eles têm peles azuis
tem pele vermelha
pele de cor de pele
é tudo cor
cabeça quente e dor de gelo
alicates contornam agulhas e canetas
nada se escreve com papel borrado de cinza escuro
cotovelos mexem-se como línguas falantes demais
meditação, nada vem, meditação de outrem
meditação no trem, na passagem
na imagem, consumo, medo, velocidade
atraso de quem?
a mãe abraçou a filha antes de ela morrer no primeiro sinal
vertigem do prédio colorido
dor
dor
dor
dor
asfalto quente, banco gelado e metálico de cinza cromado em xerox
um gole de vinho gelado, um gole de vinho gelado,
está frio aqui
está frio lá nas notícias fotografadas por homens como nós que temos frios quentes
preciso parar
é só um exercício, é viciante, não vejo nada
o que é que se pode ouvir depois da noite escura ou num dia de tempestade de espinhos?
ela cheirou o chão com os seios, cortou-os, mostrou-os, a dor, dor, dor
eles estão vendo, eles estão vendo
Vendendo, vendendo
repetição de palavras mesmas
o mesmo sinistro do suco verde de laranja
alma derradeira quer vencer a torre de escamas
deve-se parar agora,



